sábado, 19 de março de 2016

No país do povo heroico






I

Em uma república mui estimada em prosa e verso, de Pátria amada a país tropical, abençoado por Deus, irrompeu megalítica manifestação de cumprimento do dever cívico por parte de seus valorosos cidadãos, os quais, uns mais que outros, encontravam-se nos braços de Morfeu desde os primeiros embalos carinhosos de mãos maternas. Tal despertar causou espanto geral a toda gente, tanto nacional quanto estrangeira. Diziam enciclopedistas, nacionais e importados, renomados na área científica, quer das humanas, quer das exatas, que os cidadãos da dita república agiam em manifestos nunca dantes navegados, e ainda por cima por livre, espontânea, autônoma e autêntica vontade. Também os manifestantes assim o diziam, basta reparar no falatório do senhor de chapéu panamá para a repórter de televisão: Aqui não queremos partidos, aqui somos contra a corrupção, não importa a quem atinja, todos os ladrões devem ser presos. Disse-o vestindo uma bonita camiseta com as cores da imortal flâmula da nação, onde também se lia FORA MADALENA! FORA SÓCRATES! além de uma bandeira onde se lia CONTRA A CORRUPÇÃO! e um bottom do tamanho de um pires de porcelana com a inscrição FORA PT! sobre o pavilhão nacional (PT: alusão ao partido da presidentA, ou seja, o Partido dos Tanoeiros). Havia apitos, bandeiras, cornetas, balões, fogos de artificio, papel picado e lança perfume, mais quatro carros de som que deixariam o equipamento sonoro dos Rolling Stones envergonhado, além de panfletos em papel acetinado e colorido dos mais variados. E muitas camisetas a identificar os grupos, pareceria mesmo estarmos no carnaval, fosse o tempo mais quente, porque os beijos e encontros de promissoras relações afetivas e sexuais não faltaram. Dissera outra senhora que o movimento era apartidário, incriado, sem uma cabeça de serpente ou cetro real, e temos de acreditá-la, afinal é uma senhora, e advogada de ofício, portanto pouco afeita a falácias.
Segundo os dados da imparcial rede televisiva nacional, os manifestos contra Madalena, Sócrates e PT marcaram um dia histórico na república gigante pela própria natureza. O POVO CONTRA A CORRUPÇÃO! alardeavam as manchetes dos jornais, e os dados estatísticos não deixavam dúvida: 77% dos manifestantes eram brancos, de escolaridade superior e de soldo mensal acima de cinco salários, do dito mínimo para a sobrevivência de um indivíduo. Representam bem o povo, se tal for a média nacional, caso em que o índice remunerativo ainda vai precisar realizar pelo menos os sete trabalhos de Hércules para aí chegar.
Perguntado sobre o motivo de estar no protesto, o que desejava, um rapaz de seus vinte e cinco anos, já dentista concursado, em que pese a juventude, respondeu que era contra a corrupção. Não dá mais para aguentar, disse. Então a repórter, essa era de uma emissora de rádio, ainda indagou, procurando cumprir com seu papel de jornalista e extrair o máximo de informação para tornar a notícia ainda mais completa: E o que é a corrupção para você? O rapaz não hesitou e, com um olhar triunfante, respondeu: Corrupta é a Madalena, é o Sócrates, é o PT! Eles roubam nosso dinheiro, uma carga de impostos muito grande, corrupção, sabe. A repórter ainda insistiu: Sei, sei, e o que você espera com uma possível derrubada de Madalena e a prisão de Sócrates? Espero que tudo melhore, não dá mais para viver com isso, disse o rapaz. A repórter finalizou a matéria com os dizeres: ... com mais um lúcido manifestante, indignado contra a corrupção!
Vendo tudo isso, um senhor de cabelos poucos e brancos, na sala de estar de sua casa, modesta, mas com duas estantes de livros que subiam até o teto, tomando duas paredes de cerca de 4 metros de largura, o que nos leva supor que seja um professor, ou um autodidata, isso se não se tratar de um caso patológico maníaco obsessivo de colecionamento de brochuras, encadernações, papiros, pergaminhos e, claro, livros. O idoso, dizíamos, pensou imediatamente em um rebanho de bovinos conduzido por meia dúzia de peões. Se perguntássemos aos bois porque iam naquela direção, com certeza mugiriam que era o justo e que iam de livre e espontânea vontade, a não ser alguns bois mais experientes ou mais próximos dos peões, que sabiam irem naquela direção e não em outra por causa das ordens dos peões, e estes sabiam em que direção tinham de conduzir os bois porque informados pelos patrões, grandes estancieiros. Ora, aí está um bando de homens com olhar bovino, pensou o idoso. Creem em um manifesto contra a corrupção, quando estão servindo ao interesse do PSDB e do PMDB (Partido Sibilino Deontológico Beatificador e Partido Maleável Dúctil em Berlinda, respectivamente), curiosamente dois dos três partidos mais corruptos da gloriosa história nacional, perdendo a competição por focinho para o DEM (Demoniados). Ou são bois mais experientes, que sabem a que vão e, docilmente, se deixam conduzir.
O pensamento do velho senhor prosseguiu: Ora, aqui nesta república, cujos lindos campos têm mais flores, infelizmente menos perspicácia há na cabeça de muitos meninos e meninas. Os manifestantes personificam um conceito abstrato em indivíduos e em um partido. Assim, Madalena, Sócrates e o PT são a Corrupção. Uma espécie de esfinge que desparecerá com a degola, não a literal, não se vá querer violência, de Madalena e Sócrates, e do PT. Quem atentar para as condicionantes dos manifestos não terá dificuldades em perceber que a maioria das pessoas que foram às ruas, mesmo que imaginando que estejam a ir espontaneamente contra a corrupção, em verdade vão em razão da crise econômica que tem varrido de nossos campos as mais lindas flores, em sua maioria maquinofaturadas em plásticos, metais e eletrônicos, antes tão ao acesso da polpuda niqueleira dos medianamente afortunados, e agora tão distantes, pois da polpuda ficou só o p. E os possíveis beneficiados imediatos disso tudo, nem é preciso nomeá-los, afinal não estamos a falar com bovinos.


II

Nas ruas e nas redes ditas sociais, alguns (ou muitos, dependerá do ponto de vista do analista) exigem o impeachment de Madalena, a prisão de Sócrates. Sem desautorizar a voz desses grupos, mas colocando uma pedrinha no meio do caminho, indaga-se o nosso já conhecido e estimado senhor dos livros qual o motivo para o impeachment, pois não o encontra nem mesmo após vasculhar todos os seus livros, todos os sítios eletrônicos e todos os códigos jurídicos, escritos ou consuetudinários. Também se questiona o caríssimo idoso das provas do crime cometido por Sócrates, e não as encontra, vai ver a vista ou a memória estão a pregar-lhe uma peça, por isso revisa novamente todos os arquivos, todos os noticiários, todas as leis, mas não encontra a prova, nem mesmo a de não responder o e-mail em cinco minutos, ou o whatsapp em 3 segundos, como muitos acusam os mais vagarosos ou mais cuidadosos com a linguagem. Sócrates, inclusive, sequer foi indiciado, permanecendo na condição de suspeito, assim como eu posso ser suspeito de crime ecológico ao comer um churrasco!, arrematou o pensamento do prezado senhor. Em meio à crise econômica, aos ataques insistentes da oposição, a presidentA Madalena nomeia Sócrates para ministro da morada, ao que novos protestos explodem. Um honrado jurista argumenta que tal ato não é ilegal, tampouco inconstitucional, mas inúmeras pessoas saem às ruas em manifesto contrário à nomeação. Ao que nosso já íntimo senhor dos livros disse em voz alta, conversando consigo mesmo, ou quem sabe com o gato preto enrodilhado na poltrona, melhor dizermos já que era uma gata, não queremos novos protestos: Os bovinos mugem e mugem e mugem. E mugem porque é Sócrates. Fosse nomeado o Caçador-de-marajás, a Mula-sem-cabeça ou o Fernandinho beira-mar e ninguém estaria a protestar. Donde se concluí que há algo mais do que um inesperado surto ético nos cidadãos desta república atlântica, afortunada com filhos que não fogem à luta. Algo digno de ser registrado como apêndice dos livros bíblicos seria este mesmo rebanho sair às ruas em protesto contra a fome! Contra a miséria! Em defesa da educação e da saúde! Em defesa dos sem-terra e dos sem-teto! E, claro, contra a corrupção! Isso, sim senhor, faria com que Alá, Jeová, Deus ou Buda descesse dos céus ou onde quer que esteja para dizer: Parabéns! Hoje subireis todos aos píncaros celestiais, pois agiram em acordo com suas centelhas divinas. Sim, é uma ilusão – alguns chamariam mesmo de um disparate, os protestos humanitários, não o aparecimento repentino de um ser divino em meio a raios, trovões, luzes, queda de meteoros, a lua tornando-se sangue, o sol se movendo e o planeta Terra desaparecendo para ceder lugar a uma Terra Nova, nada disso é utopia, apenas que uns manifestem-se em defesa dos outros às ruas o será. Mas os há, basta procurar bem pelas searas, florestas e cidades mundo afora, talvez lá no fundo de uma gruta, no pico de uma montanha, basta procurar... e essas palavras já não as disse em voz alta.
 Quem sabe uma união de todos em apoio ao governo da Madalena para corrigir a curva má traçada pela economia, punir os verdadeiramente culpados, sejam de onde forem, sugere uma menina franzina, não mais que doze anos, óculos de aro redondo e preto a emoldurar dois olhos brilhantes, cabelos radiantes – dir-se-ia uma figura angélica –  e, completou o pensamento do senhor dos livros, com o cálice do amor, da bondade, da solidariedade e da compaixão ainda intocado pelas pedras e pela cicuta dos jovens, maduros e velhos exemplares de muares, de bovinos e de assemelhados, prontos ao apedrejamento e ao envenenamento em defesa, simples e corrompido assim, das patacas em suas bolsas. Em outro canto da brava república, outra menina cantava de amor eterno seja símbolo, de amor eterno seja símbolo, de amor eterno seja símbolo... para espanto e terror de manifestantes que entoavam o imortal e mais belo hino nacional de todas as nações, das extintas, das existentes e das ainda por vir, tal é o entusiasmo do povo heroico de nossa idolatrada, salve, salve! O dileto senhor dos livros ainda pensou: mugem, apenas mugem, mas se lhes percebe a baba raivosa escorrendo a cada grito. Sentou-se em uma cadeira muito velha, em frente a uma extemporânea e escura escrivaninha, habitada por uma dúzia de colônias de cupins, e escreveu este texto, o qual transcrevemos aqui literalmente:


Notas sobre os manifestos de 13 de março de 2016

Os manifestos do último domingo foram saudados em diferentes tonalidades. Desde o “dia histórico” para a cidadania nacional, até a manifestação de antidemocracia “golpista”. Mas, o que realmente motivou os protestos? A corrupção é um fator, mas tão somente um. Há outros mais poderosos agindo e se beneficiando dos protestos, gostemos ou não disso. 



Manifesto apartidário?

A demonstração de cidadania e a luta contra a corrupção não merecem nenhum descrédito, antes muito pelo contrário. Os problemas começam, entretanto, quando se veicula a notícia de que os manifestos não possuem cor partidária, nascidos espontaneamente dentro de uma bolsa hermética e antisséptica. Prosseguem na personalização da corrupção em Madalena e Sócrates, solicitando-se – ou ordenando-se, logo se verá – o impeachment daquela e a prisão deste, quando sabemos que não há argumentos jurídicos-constitucionais que embasem nem uma ação, nem a outra. Recobremos que Sócrates, por exemplo, foi denunciado como suspeito pelo Ministério Público, sequer foi intimado, não é réu, fato – não juízo de valor – que per se desautoriza a ação de condução coercitiva perpetrada há alguns dias. E a causa suprema e inquestionável para o impeachment, alguém tem ideia?
Interessante notar que os manifestos foram precedidos pela manobra de ribalta efetuada pelas elites políticas de alguns “eméritos” partidos, notoriamente PSDB e PMDB, aproximando-se a ponto de o último passar a cotejar um abandono da plataforma governista. Um alinhamento em favor da “decapitação” de Madalena e de Sócrates em benefício de.......... ora, ora... PSDB e PMDB. Para esses e outros (talvez a metade) dos partidos, a política econômica governista desagrada, uma vez que pouco propensa ao neoliberalismo. O manifesto cidadão contra a corrupção, na voz da maioria dos seus líderes e partícipes é apartidário, é contra a corrupção. Então, não é inoportuno indagar o porquê de tantas faixas e palavras de ordem contra Madalena, Sócrates e PT, ao passo que FHC sequer é mencionado, assim como os partidos mais corruptos dos últimos anos, segundo dados do MCCE, e que são...... DEM, PSDB e PMDB!!!! Partidos de agenda neoliberal que, juntamente ao espetáculo militante da mídia (boa parte dela) conseguiram dar a aparência de um manifesto contra a corrupção para aquilo que é uma manobra política contra o Governo e o PT. Imagine esses partidos e suas elites políticas solicitando o apoio de um manifesto para a flexibilização das leis trabalhistas, para a privatização da petrolífera nacional e para cortes nos investimentos em educação e saúde, pontos básicos para um programa neoliberal. Convenhamos que seria um tanto difícil cooptar apoio... agora, contra a corrupção, e ainda aclamado como apartidário, o movimento serve como uma luva à oposição. Então, o manifesto ainda é apartidário?


Questão econômica

O que de fato injetou os ânimos para o manifesto, além dessas manobras necessariamente político-ideológicas – tanto das elites políticas, quanto da mídia –, foi a crise econômica vivida nos mais distantes pontos da geografia da nação, na qual a classe média é a mais atingida, sobremodo em seu poder aquisitivo. Depois de alguns anos de consumismo desinibido, com fartas e atraentes taxas de juros, com a estabilidade cambial e o paraíso das férias na Europa, sem mencionar as “importações” e outros gastos com comodidades supérfluas (uma tv de 50 polegadas, pois a de 42 já não servia mais), a classe média se vê privada de seus pequenos luxos e.... protesta, sob uma bandeira de apelo mais popular, ou seja, a corrupção. Não é inatacável a convocação de uma manifestação sob a reivindicação de benesses para si, mormente se econômicas, mas de um valor já considerado universal, ninguém se atreverá a contestar – a corrupção. O próprio perfil das pessoas envolvidas nos manifestos, segundo instituto de pesquisa DF, revela o caráter elitizado dos movimentos em todo a pátria: 77% de brancos, com ensino superior e renda acima de 5 salários mínimos. Mais evidente, impossível. A questão econômica é o pano de fundo da indignação “popular”, sugerida e cooptada pelas manobras políticas da oposição (sem que as pessoas percebam, ou percebem e concordam), sobretudo PSDB e PMDB, interessadas desde a eleição de 2014 em inviabilizar o governo petista de Madalena – lembremos que naquela ocasião sugeriu-se anular o pleito eleitoral –, e insuflada, a indignação, pelos arroubos sensacionalistas da mídia, a qual fabrica verdades – veja-se o caso da invenção de que Delcídio teria afirmado corrupção de Dilma na campanha de 2004, desmentida 24h depois. Porém, já havia saído em jornais e revistas e.... virou verdade!


Messias

A personalização é outro elemento nefasto na vida cívica de nossa nação. O maniqueísmo impera e é incentivado, sobretudo pela mídia, encontrando terreno próspero no senso comum. Desta forma, Madalena é a Corrupção, assim como Sócrates ou o PT. Punindo-se um e outro resolve-se o problema – mesmo que no momento não existam provas para tanto. Do lado dos mocinhos, o juiz de Gotham – novíssimo herói romântico. Imaculado, aparece como ilibado messias nas capas de periódicos sensacionalistas. É preciso que não tenhamos a esperança unicamente em uma pessoa, um salvador da pátria, mas nas instituições, e aí a corrupção anda a passos largos e sequer cogita-se a sua punição. 
Enfim, embora seja verdadeiro que a maior parte da população, indiferentemente a condição social,  seja contra a corrupção e não veja como não apoiar um movimento contra a mesma – e está corretíssima –, é necessário perceber que os manifestos apenas aparentam não possuir caráter apartidário; são engendrados e cooptados segundo interesses políticos-ideológicos escusos (partidos, mídia, elites políticas e empresariais); encontram fôlego necessariamente em uma conjuntura de crise econômica – ou você consegue imaginar as pessoas de razoável condição socioeconômica  saindo às ruas exclusivamente contra a corrupção no governo (Madalena, ministros, senadores e deputados, pois esse é o governo!)?    e, se de um lado refletem uma atitude cívica, de outro lado revelam os interesses político-ideológicos em jogo.
À “imagem” de um manifesto – em verdadeiro surto ético inesperado – contra a corrupção, espontâneo, popular e apartidário devemos contrapor os fatores ocultos, para uma adequada revelação da aletheia. 



Sócrates ministro

Nomeação de Sócrates para o ministério. O ex-presidente escapa das investigações? Até mesmo no mundo vegetal sabe-se que não, que, muito ao contrário, a questão toda será julgada em uma instância superior – STJ. O léxico ‘superior’ não está ali em uma posição nula, indica justamente um grau elevado em relação ao estádio no qual encontra-se o juiz de Gotham. Teoricamente, um julgamento no STF deverá ser tão ou mais competente do que em instâncias inferiores. A alegação de que a nomeação para o ministério livra Sócrates das investigações pode, então, ser jogada no lixo, ou entendida como deve ser: mais uma manobra perpetrada pela oposição e pela mídia para minar o Governo, quando seria de se esperar – caso tivéssemos políticos profissionais, interessados no bem-estar da coletividade – uma atitude de solidariedade e união para enfrentar os problemas econômicos atuais. Repare na insistência dos noticiários no vocábulo ‘privilegiado’, sugerindo à população uma ideia de que não haverá investigação, julgamento...
Em segundo lugar, trata-se de uma nomeação dentro das regras constitucionais, sem nenhuma virada de mesa ou atropelo das leis do país. Então, por que protestar contra a nomeação? A resposta é simples e encontra-se no fato de ser Sócrates, de ser o PT! Caso fosse nomeado para o ministério o Bozo, o Maluf ou o Al-Capone não haveria protesto. A questão é Sócrates, Madalena e o PT, não a corrupção ou alguma incompetência política vista a olho nu. E, novamente, temos de perceber a quem tais protestos podem beneficiar.
Até pode-se criticar a nomeação, mas respeitá-la pelas normas constitucionais em que foi realizada. Pode-se, igualmente, não ser adepto de Sócrates, Madalena ou PT, mas é dever apoiar o Governo para solucionar a crise econômica – raiz de tudo, ao fim e ao cabo. Falta-nos exatamente isso: solidariedade e cooperação, tanto nas instâncias decisórias da política, quanto em nossas vidas cotidianas: imagine milhares de pessoas (se forem da classe média, melhor) saindo em protesto contra a fome no país! Contra a desnutrição infantil! Contra a exploração dos trabalhadores! Em defesa dos sem-terra, dos sem-teto, dos mendigos e dos miseráveis! Em defesa da saúde e da educação! Mas, tal não ocorre, afinal não é do interesse dos poderes econômicos e políticos, tampouco das pessoas que pensam de forma individualista e egoísta. A nomeação de Sócrates para o ministério é parte integrante de um movimento do Governo para tentar solucionar, ou dirimir, a profunda crise que vivemos – e é dever de todo cidadão, político profissional ou não, colaborar eticamente para, pelo menos, não atrapalhar.

J.C. da Silva – 17 de março de 2016, Bosque.



Não se sabe a quem se dirigia tal manuscrito, se para alguma comunicação em rede nacional, para o arquivo pessoal, para um amigo, para a oposição, para a situação. E não se sabe porque ela foi encontrada na mão esquerda de nosso estimado senhor dos livros, com os dedos crispados e a respiração ausente, ali sentado com a cabeça pendendo para trás. Sobre o tampo da escrivaninha um frasco de comprimidos virado, vários deles. De cores diversas, jogados ali e acolá, dir-se-ia dispostos propositalmente, quem o sabe?

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

A internet, por Mario Vargas Llosa



Este texto foi parte integrante da prova de mestrado, língua estrangeira, em 2012. Na época, fiquei feliz de encontrar uma voz de peso que exprimisse tão bem o que eu pensava, e ainda penso, sobre as novas tecnologias. Evidentemente, em meu pensar aparecia em forma rudimentar, nem de perto a refinada análise e linguajar do peruano: escritor admirável, pensador quase sempre perspicaz e todos os outros elogios possíveis. Apenas uma ressalva para a sua reorientação política, o que não invalida os antecedentes méritos reconhecidos. Reproduzo integralmente a notícia publicada no Estado de São Paulo, em 2011.




Nicholas Carr estudou Literatura no Dartmouth College e na Universidade Harvard, e tudo indica que, na juventude, foi um voraz leitor de bons livros. Logo, como aconteceu com toda a sua geração, descobriu o computador, a internet, os prodígios da grande revolução informática do nosso tempo, e não só dedicou boa parte de sua vida à utilização de todos os serviços online como se tornou um profissional e especialista nas novas tecnologias da comunicação sobre as quais escreve amplamente em prestigiosas publicações dos EUA e da Inglaterra.
Certo dia, descobriu que deixara de ser um bom leitor, e, praticamente, um leitor, inclusive. Sua concentração desaparecia depois de uma ou duas páginas de um livro, e, principalmente, se o que ele lia era complexo e exigia muita atenção, surgia em sua mente algo parecido a um repúdio a continuar com aquele empenho intelectual. Ele conta: “Perco o sossego e o fio, começo a pensar em outra coisa. Sinto como se tivesse de arrastar o meu cérebro desconcentrado de volta ao texto. A leitura profunda que costumava vir naturalmente se tornou um esforço”.
Preocupado, tomou uma decisão radical. No fim de 2007, ele e a mulher abandonaram suas instalações ultramodernas em Boston e foram morar nas montanhas do Colorado, onde não havia telefone móvel e a internet chegava tarde, mal ou mesmo nunca. Ali, ao longo de dois anos, escreveu o livro polêmico que o tornou famoso, The Shallows: What the Internet is Doing to Our Brains (Superficiais: O Que a Internet está fazendo com Nossas Mentes?, Taurus, 2011). Acabo de lê-lo, de um fôlego só, e fiquei fascinado, assustado e entristecido.
Carr não é um renegado da informática nem quer acabar com os computadores. No livro, reconhece a extraordinária contribuição que Google, Twitter, Facebook ou Skype prestam à informação e à comunicação, o tempo que esses recursos permitem economizar, a facilidade com que uma imensa quantidade de seres humanos pode compartilhar de experiências, os benefícios que tudo isso representa para empresas, pesquisa científica e desenvolvimento econômico das nações.
Mas tudo isso tem um preço e, em última instância, significará uma transformação tão grande em nossa vida cultural e na maneira de operar do cérebro humano quanto a descoberta da imprensa por Gutenberg no século 15, que generalizou a leitura de livros, até então exclusiva de uma minoria insignificante de clérigos, intelectuais e aristocratas. O livro de Carr é uma reivindicação das teorias do agora esquecido Marshall McLuhan, ao qual muitos nem deram atenção, quando, há mais de meio século, afirmou que os meios de comunicação não são nunca meros veículos de um conteúdo, que exercem uma influência dissimulada sobre este, e, a longo prazo, modificam nosso modo de pensar e agir. MacLuhan referia-se principalmente à TV, mas a argumentação do livro de Carr, e as experiências e testemunhos abundantes que ele cita como respaldo, indicam que essa tese tem uma extraordinária atualidade relacionada ao mundo da internet.
Os defensores recalcitrantes do software alegam que se trata de uma ferramenta e que está ao serviço de quem a usa e, evidentemente, há abundantes experiências que parecem corroborá-lo, sempre e quando essas provas sejam realizadas no campo de ação no qual os benefícios daquela tecnologia são indiscutíveis: quem poderia negar que é um avanço quase milagroso o fato de que, agora, em poucos segundos, clicando com o mouse, um internauta obtenha uma informação que, há poucos anos, exigia semanas e meses de consultas em bibliotecas e com especialistas? Mas também há provas conclusivas de que, quando a memória de uma pessoa deixa de ser exercitada, por contar com o arquivo infinito que um computador põe ao seu alcance, ela embota e se debilita como os músculos que deixam de ser usados.
Não é verdade que a internet seja apenas uma ferramenta. Ela é um utensílio que se torna um prolongamento do nosso próprio corpo, do nosso próprio cérebro, o qual, também, de maneira discreta, vai se adaptando pouco a pouco a esse novo modo de informar-se e de pensar, renunciando paulatinamente às funções que esse sistema faz por ele e, às vezes, melhor que ele. Não é uma metáfora poética afirmar que a “inteligência artificial” que está ao seu serviço, corrompe e sensualiza os nossos órgãos pensantes, os quais, aos poucos, vão se tornando dependentes daquelas ferramentas, e, por fim, seus escravos. Para que manter fresca e ativa a memória se toda ela está armazenada em algo que um programador de sistemas definiu como “a melhor e maior biblioteca do mundo”? E para que eu deveria aguçar a atenção se, apertando as teclas adequadas, as lembranças das quais preciso vêm até mim, ressuscitadas por essas diligentes máquinas?
Não surpreende, por isso, se alguns fanáticos da internet, como o professor Joe O”Shea, filósofo da Universidade da Flórida, afirma: “Sentar-se e ler um livro de cabo a rabo não faz sentido. Não seria um bom uso do meu tempo, e com a internet posso ter todas as informações com mais rapidez. Quando uma pessoa se torna um caçador experimentado na internet, os livros são supérfluos”. O mais atroz desta declaração não é a afirmação final, mas o fato de esse famoso filósofo acreditar que uma pessoa lê livros somente para “informar-se”. Esse é um dos estragos que o vício fanático da telinha pode causar. Daí, a patética confissão da doutora Katherine Hayles, professora de Literatura da Universidade Duke: “Não consigo mais que meus alunos leiam livros inteiros”.
Esses alunos não têm culpa de agora serem incapazes de ler Guerra e Paz e Dom Quixote. Acostumados a picotar a informação em seus computadores, sem ter a necessidade de fazer prolongados esforços de concentração, eles perderam o hábito e até a capacidade de fazê-lo. Foram condicionados a contentar-se com o borboletear cognitivo aos quais a Rede os acostuma, tornando-se de certa forma vacinados contra o tipo de atenção, reflexão, paciência e prolongado abandono ao que se lê, que é a única maneira de ler a grande literatura. Mas não acredito que a internet torne supérflua apenas a literatura: toda obra de criação gratuita, não subordinada à utilização pragmática, é excluída do conhecimento e da cultura propiciados pela Rede. Sem dúvida, essa pode armazenar com facilidade Proust, Homero, Popper e Platão, mas dificilmente suas obras terão muitos leitores. Para que dar-se ao trabalho de lê-las se no Google podemos encontrar resumos simples e amenos do que inventaram nesses aborrecidos calhamaços que os leitores pré-históricos costumavam ler?
A revolução da informação está longe de ter terminado. Ao contrário, nesse campo surgem a cada dia novas possibilidades, conquistas e o impossível retrocede velozmente. Devemos alegrar-nos? Se o gênero de cultura que está substituindo a antiga nos parecer um progresso, sem dúvida sim. Mas deveremos nos preocupar se esse progresso significa o que um erudito estudioso dos efeitos da internet em nosso cérebro e em nossos costumes, Van Nimwegen, deduziu depois de um dos seus experimentos: Confiar aos computadores a solução de todos os problemas cognitivos reduz “a capacidade das nossas mentes de construir estruturas estáveis de conhecimento”. Em outras palavras, quanto mais inteligente for o nosso computador, mais estúpidos seremos.
Talvez haja certo exagero no livro de Nicholas Carr, como ocorre sempre com os argumentos que defendem teses controvertidas. Não possuo os conhecimentos neurológicos e de informática para julgar até que ponto são confiáveis as provas e experiências científicas que ele descreve em seu livro. Mas esse me dá a impressão de ser uma obra rigorosa e sensata, uma advertência que – não nos enganemos – não será ouvida. O que significa, se ele estiver com a razão, que a robotização de uma humanidade organizada em função da “inteligência artificial” é incontrolável. A menos, é claro, que um cataclismo nuclear, por algum acidente ou uma ação terrorista, nos faça regressar às cavernas. Teremos então de começar tudo de novo, e, quem sabe, dessa vez façamos melhor.

TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Terroristas são os outros



As ações terroristas do grupo Estado Islâmico, evidentemente, não possuem justificação. Nos últimos dias, milhares de pessoas se solidarizaram com a nação francesa, todos como vítimas do terror. Nada mais justo. Ocorre, no entanto, que nos confortamos no papel da vítima – considerada sempre injustiçada, oprimida, violentada, incompreendida entre outros qualificativos que a tornam sacrossanta. Penso que não percebemos até que ponto somos, a um só tempo, vítimas e carrascos, uma vez que não olhamos para o lema jamesoniano, “Historicizar sempre!”, tampouco nos atentamos para o inexorável caráter ideológico da palavra, já nos advertia Bakhtin.
Na noite de sábado, surpreendi-me com as manchetes no telejornal noturno da rede Globo, precisamente quando o repórter advogava que os ataques terroristas da última década – sobremaneira o 11 de setembro, nos EUA, e as duas ações do Estado Islâmico na França, em 2015 – representam a luta do terror contra a democracia. E concluía com a afirmação de que os valores de liberdade e igualdade, tão bela e exemplarmente solidificados nesses países, não morreriam, pois os cidadãos não o permitiriam. Ora, cabe-nos pensar na tal democracia. Caso você não queira ler muito texto, vá para o próximo parágrafo.
A democracia, em seu aspecto formal, definida minimamente pela existência de partidos políticos, alternância no governo via eleições periódicas, livre competição pelo voto do eleitor, enfim, definida em seu aspecto procedimental (ver Bobbio), ela de fato existe. Todos o sabemos. No entanto, cabe a célebre pergunta: e a democracia substancial, que enseja uma efetiva realização dos pressupostos de liberdade e de igualdade, com o atendimento das demandas sociais? Parece-nos claro que nunca tivemos essa democracia. Então, fica outra indagação: o terrorismo combate a democracia? Qual, se não somos democráticos? Dirá você que temos eleições... Sim, mas somente isso não caracteriza a tal democracia da liberdade e da igualdade. Quando milhares de pessoas vivem abaixo da linha de pobreza, como nos Estados Unidos, na França, no Brasil e no mundo inteiro, fica bastante difícil defender a existência da glorificada (e ausente) igualdade. Milhões de pessoas morrem todos os dias vítimas da fome, da desnutrição, de doenças e outros problemas que poderiam ser solucionados caso não imperasse a lógica do capital. É curioso que ninguém se compadeça com essas milhares de vítimas da fome – produto da desigualdade social e do império do mercado. Vítimas que vivem sob o terror político e econômico dos grandes complexos industriais, em todos os penosos dias da existência. Logo, meu caro, vamos distinguir duas formas de terrorismo: a dos grupos extremistas islâmicos e a do dia a dia, a do capital. Ambas indefensáveis. Que a ação na França não se justifica já o dissemos, mas não nos venham querer ludibriar com a ideia de que somos democráticos e, somente, vítimas. Aliás, que democracia é essa – Estados Unidos e França – que efetua intervenções militares em outros países, interferindo na soberania e na autodeterminação dos povos – está lá, na Carta da ONU. Estabeleçamos um paralelo: entre as décadas de 1920 e 1940, ocorreram intervenções militares da Alemanha nazista, por exemplo. Ah, não eram intervenções, mas expansões militares hostis de países ditatoriais! De acordo, mas apliquemos o termo adequado, então: na atualidade, as intervenções militares de Estados Unidos e França, na região do oriente, nada mais são do que expansões militares!!! Países que interferrem unilateralmente e violentamente sobre outros ainda merecem a qualificação de democráticos? Ainda podem falar no outro pilar da democracia, a liberdade? (ver Chomsky). O Estado Islâmico, para curiosidade, surgiu como uma dissidência da Al-Qaeda no Iraque, após a destruição do país pelos Estados Unidos e aliados em 2003. Lembremos que não havia célula da Al-Qaeda no Iraque antes desta data, mas, com o vazio governamental e a crescente violência das tropas alienígenas, o terreno se preparou – e lá foi a Al-Qaeda. Terão as potências “interventoras”, portanto, alguma responsabilidade pelo surgimento do famigerado Estado Islâmico? Somente cego (da razão) para não se perceber.
Somos vítimas? Sim, somos vítimas de grupos terroristas a cada dia mais violentos. Mas, somos também algozes, na medida em que não vivemos a tal democracia e fazemos de conta que está tudo bem em vermos milhares de mortos de fome no mundo. A vida é assim, dizem... Enganamos-nos facilmente com palavras bonitas, mas vazias de efetividade, como a democracia, a liberdade e a igualdade. Em que lugar existem? Com isso, contribuímos para as ações desesperadas, violentas e injustificáveis do terror, mas, melhor pensar que somos as vítimas, não é mesmo? Terrorista é você, sou eu, somos todos – cristãos, muçulmanos, judeus, espíritas ou o que quer seja – pois nos cegamos diante de embustes como “o terrorismo combate a democracia, a liberdade e a igualdade”, e o fazemos porque é mais cômodo. Bem, para um textinho de blog, já está mais do que bom, até porque pouca gente lê. Mas, você ainda poderia perguntar: então, o que você faz para mudar as coisas? Eu faço esse texto – no futuro quem sabe algo mais – com a esperança de que 5 pessoas o leiam, cada qual comente com outros 5 amigos, os quais, por sua vez, comentam com outros 5.... e, assim, talvez tenhamos uma multidão de inconformados com obviedade ideológica do discurso da mídia. Uma vez inconformados, opa, estamos a um passo da ação, da luta e da mudança!